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Bicicletas para que te quero





Eis que estou cá de volta das férias - 15 dias nas belas praias do Algarve e 15 dias nas belas ciclovias da Holanda.

Pois, não foram museus nem moinhos que me deixaram de queixo caído na Holanda, mas sim a supremacia das bicicletas.

Na Holanda quem manda não é o rei ou o primeiro ministro, mas sim as biclas. Elas mandam no trânsito, colocam os pedestres em seus devidos lugares, aniquilam carros, tentam até escantear o transporte público. E a propósito, até a rainha leva ela própria os filhos de bicicleta para a escola. Sem escolta, dizem as boas línguas.

Sob o horário de ponta não se encontram carros aos sinais, mas bicicletas para cá e para lá. Modernos VLTs enfeitam as ruas em meio às bicicletas e complementam as opções de deslocamento na cidade.

Na Holanda, idosos não estão curvados sobre suas bengalas, mas eretos sobre as ciclovias, saudavelmente magros, com ares de atletas aposentados em charmosas bicicletas vintage - na frente uma caixa com itens de supermercado ou mesmo flores.

Nas bicicletas vão mães empurrando crianças num reboque, donos com seus cães na cesta, duas pessoas na tandem. Na bicicleta vai qualquer coisa que você ainda não imagina que possa ir, como pessoas puxando carrinhos de feira, alguém passeando o cão com a guia, tomando café ou teclando ao telemóvel. Sempre sem capacete, pois na Holanda a bicicleta é um pedaço do corpo e o capacete seria algo fora de lugar.

A Holanda se transformou num país inteiramente ciclável por um pleito da própria população no período pós guerras. Àquela época Amsterdã passou a contar com uma quantidade desproporcional de carros, graças ao sucesso da indústria automobilística e à prosperidade econômica. Uma cidade cheia de crianças a brincar nas estreitas ruas dos seus canais se viu repentinamente infestada de veículos rápidos - uma combinação desastrosa que ocasionou muitos acidentes fatais. 

Com muitas crianças vitimadas, a população foi às ruas sob o mote “Stop de Kindermoord”(parem com o assassinato de crianças). E após uma ajudinha da crise do petróleo na década de 70, todo um marco jurídico foi feito, com a cidade passando a priorizar as bicicletas em detrimento dos carros. E hoje temos uma cidade que, junto com Copenhague na Dinamarca, é referência mundial pela predominância das bicicletas sobre os demais meios de transporte.

Mas exatamente o que estimula as pessoas a deixarem o carro em casa - ou mesmo a até não terem carro em um país que chove 10 meses por ano e tem temperaturas tão baixas no período?

Para começar, o transporte que te faz chegar mais rápido é a bicicleta. O trânsito é lento, não por ter muitos carros circulando (não é mesmo o caso), mas porque a velocidade máxima nas regiões mais centrais chega a irritantes 30 km/h e nas menos centrais 50 km\h.

O imposto de rodagem, semelhante ao IPVA, é absurdamente caro. Os valores de estacionamento dentro da cidade são proibitivos - cerca de 6€ a hora nos estacionamentos fechados e 3€ a hora para estacionar na rua até o período máximo de duas horas. 

Revisões do carro são obrigatórias a cada dois anos e o combustível é caríssimo - 1,70€ o litro.  

O transporte público é fantástico e cobre muito bem as cidades e o país todo. Mas não é barato como a bicicleta. Aliás, nada é.

A topografia plana do país ajuda, mas a infraestrutura criada é fantástica, com ciclovias mais largas nos lugares de maior fluxo, sinais de trânsito na altura do ciclista, prioridade da bicicleta em todas as situações (exceto se um pedestre invadir a faixa de pedestre). Não se desmonta da bicicleta durante o percurso. Há ciclovias em praticamente todas as vias e estacionamentos de bicicleta em todo canto e eles são gratuitos (mesmo assim em Amsterdã ainda há falta crônica de vagas em alguns locais, cidade em que há mais bicicletas que habitantes).

Como estamos em Portugal?

Eu uso bastante a bicicleta como meio de transporte em Lisboa. Uso majoritariamente as ciclovias, mas com freqüência preciso andar na via junto aos carros, e em geral (mas não sempre) eles respeitam, mantendo a distância de 1,5 metro que manda a legislação de trânsito. A qualidade das ciclovias mais recentes é excelente, ainda que as antigas apresentem a má qualidade da infraestrutura da primeira leva feita. As famosas sete colinas de Lisboa não são suficientes para banir as bicicletas, embora as áreas cicláveis estejam majoritariamente nas partes planas do Concelho.

De acordo com o site ciclovia.pt, há em Portugal hoje 1.787,60 km em ciclovias. Apenas no Concelho de Lisboa, onde vivo, há 36 km.

Parece muito para a realidade brasileira, mas quando comparamos com os mais de 400 km apenas na cidade de Amsterdã, temos a real dimensão do quanto ainda estamos a engatinhar nesse processo. Mais, na questão cultural. Ainda persiste uma mentalidade ultrapassada desde os motoristas, que esbravejam ao terem que disputar espaço com as biclas nas ruas, até aos próprios planejadores urbanos que desenvolveram boa parte das ciclovias sem consultar os usuários, ou aos legisladores que não desenvolvem marcos jurídicos que priorizem a cidade para os cidadãos, e não para os carros. 

Soube que há uma diretriz da União Européia que orienta as cidades a aumentarem a área pedonal e ciclável e a área arborizada em detrimento do espaço para os carros. Torcemos para que essa política prevaleça.

Afinal, não vejo como uma cidade possa ter sustentabilidade ambiental e social sem a inserção da bicicleta como meio de transporte. 

A bicicleta dá autonomia ao cidadão, independência não apenas dos carros, mas das marcas. Ela liberta a cidade para áreas agradáveis, verdes e espaços de convivência social. Proporciona saúde, economia de tempo e lazer. Não à toa os holandeses sentem orgulho de suas bicicletas!

De volta à minha realidade lisboeta, é verão e não há tempo melhor para ir com minha bike para todo lugar, enquanto sonho com o dia em que todos os países terão se rendido ao poder da bicicleta.

Fotos das ciclovias de Lisboa e minha com minha bike, escrevendo no Parque de Campo Grande:








Ruas sem trânsito em Den Haag (Haia) em horários de pico. A terceira foto foi feita às 19h de um dia de semana normal:





Estacionamentos de bicicleta em Den Haag e Rotterdam:





Há bicicletas de todos os tipos na Holanda e são todas funcionais. Não vi bicicleta esportiva lá. São voltadas à função de meio de transporte/trabalho. E são extremamente confortáveis! Abaixo:








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